Influencers do sexo: a vida das prostitutas que são famosas na web

Fotos sensuais, bumbum à mostra, closes nos seios fartos. As garotas de programa da geração Y estão bombando nas redes sociais. Com milhares de seguidores e estratégias de postagem, usam seus perfis para fechar programas e conquistar clientes. Marie Claire investigou quem são e como trabalham essas novas – e polêmicas – celebridades virtuais

16/02/2018 - 17:52 hs

Ela tem 218 mil seguidores no Instagram e 106 mil no Twitter, posta selfies diariamente, que ganham milhares de likes. Tem fãs virtuais, perfis fakes, haters, e é reconhecida nas ruas com frequência por seus posts. A paulistana Patrícia Kimberly, 33 anos, é uma influencer, mas das mais incomuns: em vez de roupas de grife ou maquiagens, vende programas. Prostituta há 14 anos, descobriu, há quatro, a chance de aumentar a clientela – e os ganhos – nas redes sociais. Atualmente, uma hora com ela sai por R$ 500, o dobro de antes de criar perfis profissionais nas redes. No Instagram, por exemplo, mostra os lugares que frequenta. Há desde uma foto montada em um touro mecânico em formato de pênis pink até inúmeros closes de seu bumbum, passando por atividades triviais como selfies na piscina com as amigas ou na academia. Todas as poses, claro, são provocantes, e Patty está sempre vestida com roupas justas ou decotadas. As legendas acompanham a ousadia: “Carinha de quem quer aprontar”, “Obrigada meu lindo pela noite, foi um prazer conhecer você”, “Fim de tarde, início de noite... que tal uma cama você e eu? Faremos tudo que a nossa imaginação mandar”. E assim por diante. “Um cliente me disse para investir nas redes sociais para divulgar meu trabalho. Foi a melhor coisa que fiz. Tem dia que fecho cinco jobs pela web. Estou na melhor fase. Até porque ninguém para de fazer sexo na crise”, diz, aos risos.

Além dos programas, Patrícia conta que convites para filmes pornôs, presença em eventos e shows eróticos também aumentaram com a exposição. Seu perfil está ativo no site de acompanhantes spartanas.com.br. “Até contracenei com o Kid Bengala, uma superestrela do pornô”, conta ela, que já foi protagonista de cerca de 300 filmes do gênero. “Antes, só quem assistia aos meus filmes me conhecia, hoje alguns seguidores me reconhecem na rua, até aparecem na academia que frequento. Quando vou ao Rio, por exemplo, posto uma selfie e as mensagens para programa começam a chegar. Tudo ficou mais fácil.”

Os clientes e seguidores costumam mandar mensagens privadas para seu perfil. De lá, a conversa segue para o WhatsApp, onde os encontros são agendados. “Os programas são feitos aqui em casa. Me sinto mais segura. O prédio tem portaria e câmeras.” O maior ganho que a internet trouxe para Patrícia foi o controle sobre a própria carreira. Assim como outras profissionais do sexo, as redes sociais libertaram as garotas dos cafetões. “Não preciso mais de intermediário. Agora tiro meu dinheiro livre. Antes um terço era deles.” (Conteúdo da Marie Clare).

Além disso, a superexposição trouxe também mais segurança para o trabalho. “Com as redes, as mulheres assumiram suas identidades. Nada mais é escondido”, diz Maria Aparecida Menezes Vieira, presidente da Associação das Prostitutas de Minas Gerais. Por isso, segundo a psicóloga Silvia Malamud, de São Paulo, a atividade ficou mais profissionalizada. “Tudo está explícito: ninguém engana ninguém. Tanto o contratante quanto o contratado podem criticar ou denunciar.” Os clientes também veem vantagens na mudança da abordagem. “Gosto de garotas de programa e as encontro na hora do almoço. Pergunto via Instagram ou Whats­App se têm horário. Tudo é bem rápido. Elas são espertas, colocam fotos provocantes nos perfis”, conta o engenheiro paulistano Claudio*, de 37 anos, que não quer ser identificado. “Hoje requisito muito mais esse tipo de serviço. Se você não vê, não tem vontade, mas se dá aquela olhada no celular sempre tem alguma foto nova...”

O fenômeno, claro, é internacional. O bordel Sheri’s Ranch, um dos maiores estabelecimentos legais do segmento, que fica em Las Vegas, estado de Nevada, famoso centro de prostituição, deu um curso para ensinar suas garotas de programa a usar o Twitter para se promover. O estabelecimento estima que cerca de 40% de sua clientela o conheça graças aos perfis de suas funcionárias na rede social hoje em dia. A reformulação transformou o mercado. Ao longo dos últimos 15 anos, cerca de um terço dos bordéis legais de Nevada (menos de 20, hoje) fecharam porque a internet tornou a busca sexual muito mais fácil.

Pé de meia

Entre um cliente e outro, a carioca Erica Vieira, 30 anos, conversou com Marie Claire em um hotel no centro de São Paulo. “É aqui que faço dinheiro”, diz ela, que cobra R$ 400 por hora de programa e afirma ganhar cerca de R$ 5 mil por semana. Seu faturamento triplicou após abrir contas no Instagram e no Twitter, também há quatro anos. E suas timelines são repletas de ensaios sensuais em salas de pole dance, na cama ou na beira da piscina. “Só faço poses estratégicas para causar polêmica nos meus perfis. É isso que meu público quer ver!”

Tanta ousadia tem um preço. Erica já foi banida do Instagram duas vezes e, enquanto apurávamos esta matéria, foi excluída pela terceira após uma denúncia por conteúdo erótico. Ela trocou e-mails com a empresa e conseguiu recuperar a conta e seus seguidores com o argumento de que esse é seu trabalho e suas poses são sensuais, não explícitas. “Já tive muito bate-boca com pessoas que entravam no meu perfil e me ofendiam, dizendo que o que eu fazia era horrível, mas desisti de brigar.”

Se Erica tem lá seus desafetos online, os fãs também são numerosos. “Um dia estava atravessando a rua e um cara veio correndo dizer que ficava excitado com minhas fotos. Fiquei assustada num primeiro momento. A gente não percebe que atinge tantas pessoas.” Para ela, o serviço na internet só trouxe benefícios: “Não ter mais cafetão foi a melhor coisa da minha vida”, diz.

Erica entrou para a profissão pelas mãos de um namorado, aos 18 anos, quando trabalhava como bartender.  “Ele me chamou para um churrasco. Cheguei lá e só tinha gente bonita. Ouvi que ganharia muito mais como atriz pornô do que no bar. Foi ali que fiz meu primeiro filme. A cena era uma orgia. Me senti à vontade e ganhei um cachê de R$ 700. Daí para a frente, minha vida foi essa”, conta. Embora atue em filmes, afirma que os programas é que compõem a maior parte de sua renda. Diz que já teve loja de açaí e de suplementos, mas nunca deixou a prostituição. “Abri outros negócios, mas, se me ligavam para um programa, fechava a loja para atender. Não deu certo. O dinheiro com o sexo vem rápido. Hoje, tenho uma casa, dois carros e uma moto.”

Mãe de Raissa, de 8 anos, fruto de sua relação com um ator pornô, não quer que a filha siga seus passos. “Pago os estudos para ela ter outro futuro.” Erica diz que sofreu com a censura da família logo que assumiu a profissão. “Todos foram contra na época e por isso saí de casa. Só meu irmão nunca deixou de falar comigo. Hoje em dia, fiz as pazes com minha mãe e meu pai. Mas foi um processo doloroso”, contou, de olho no relógio à espera do próximo cliente e antes de explicar sua estratégia de postagem. “Alterno uma foto de fetiche com uma selfie e outra sensual. Tenho que instigar meus clientes o tempo todo.”

Balcão de negócios

A gaúcha Sabrina Rabanne, de 29 anos, tem outra estratégia: organiza rifas online. O prêmio é uma hora de sexo com ela. São até 100 senhas que custam R$ 50 cada. O resultado é divulgado com a ajuda de uma transmissão ao vivo no Facebook, Twitter e Instagram. “Faço rifas que são vendidas rapidamente por serem mais baratas do que fechar a hora normal, que custa R$ 600.” Além disso, ela vende (via Whats­App) vídeos pornôs de 2 minutos feitos com os próprios clientes, que não mostram o rosto, por R$ 100 cada. Vivendo há um ano num quarto de hotel, em São Paulo, diz que não termina o dia sem arrecadar ao menos R$ 1.500 e R$ 30 mil mensais, quatro vezes mais do que ganhava antes de criar seus perfis. “As redes sociais me deram a oportunidade de fazer novos negócios e decidir o quanto quero trabalhar”, diz. “O cafetão me obrigava a atender clientes mesmo quando eu sentia dores no ventre de tanto fazer programa.”

Segundo Sabrina, cada rede social tem suas particularidades e todas dão resultado. O perfil no Instagram, com 114 mil seguidores, rende permutas em salões de estética e produtos de beleza, os chamados publiposts, tão comuns entre as influencers. Mas é pelo Twitter, onde publica imagens de sexo explícito para seus 80 mil fãs, que agenda a maior parte dos programas. “Nunca fui banida, só me bloquearam por uma semana. Tenho cuidado para não perder seguidores.”

Prostituta há dez anos, trabalha todos os dias. “Não atendo casais nem mulheres. Elas querem pagar pouco e sempre pedem desconto porque querem só me beijar.” O dinheiro, ela investe no corpo e no futuro: já fez lipoaspiração, aumentou os glúteos, colocou 500 ml de silicone nas mamas, diz ter dois apartamentos em Santo Ângelo (RS), onde os pais moram e de onde a apoiam, e R$ 100 mil investidos no mercado financeiro. Já Patrícia, a paulistana cuja história abre esta reportagem, afirma que investe seu dinheiro em um plano de previdência privada e na família, que mora em Guaianases, na Zona Leste paulistana. Seu plano é se aposentar aos 55 anos. “Pretendo sair da frente das câmeras e ir para a produção de filmes pornôs quando não estiver mais com tudo em cima. Não vou largar a pornografia.”

A lei e o estigma

Embora a prostituição seja lícita no Brasil, nem todas as profissionais atuantes nas redes sociais quiseram participar da reportagem. Dezenas de mulheres se recusaram a dar entrevista ou disseram que só topariam contar suas histórias em troca de cachê, contrapartida que foi negada. Procurados por Marie Claire, Instagram, Twitter e Facebok disseram que não permitem conteúdo pornográfico nem oferta de serviços sexuais em seus sistemas, mas não conseguem controlar todo o conteúdo postado pelos usuários.

A lei, no entanto, não prevê qualquer impeditivo para a nova prática das garotas de programa. “A pessoa é livre para fazer o que quiser com o corpo. Uma foto sexy pode não ser pornográfica. Caso exista o nu nas redes, precisa-se de um alerta do conteúdo para a proteção de crianças e adolescentes”, explica o advogado Renato Opice Blum. A revolução digital modernizou, mesmo, todas as profissões.