MP-GO denuncia diretor e servidores de cadeia por negociar regalias para presos em Anápolis

Segundo o documento, eles permitiram 'escritório do crime' que chegou a movimentar R$ 5 milhões

14/03/2018 - 16:50 hs
Foto: (Paula Resende/G1)
MP-GO denuncia diretor e servidores de cadeia por negociar regalias para presos em Anápolis
Ministério Público denuncia diretor e servidores de presídio por negociar regalias para presos

O Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) denunciou um ex-diretor e dois servidores do presídio de Anápolis, a 55 km de Goiânia por permitirem “escritório do crime” na cadeia. Conforme o órgão, negociações com presos para viabilizar regalias como idas a banco, saídas e até funcionamento de motel dentro da unidade. As transações podem ter gerado R$ 1 milhão, e os detentos movimentaram R$ 5 milhões.

"Presos não devem ter regalias, tem de trabalhar, cumprir a pena. Somos contra regalias para os presos, dinheiro, lanchonete, saídas para banco, motel, mas também somos contra tortura, corrupção de agentes ", disse o promotor Tiago Galendo.

O ex-diretor Fábio Oliveira dos Santos e os servidores Antônio Dias Ataídes Neto e Sóstenes Brasil Júnior foram denunciados por: organização criminosa, tráfico de drogas, prevaricação - crime restrito a servidores por serem omissos em relação aos crimes - e por permitir a entrada de produtos ilícitos.

Investigação

A denúncia é resultado da Operação Regalia, iniciada em junho de 2016 e que cumpriu mandados em duas fases, em setembro e novembro de 2017. Desde então, todos os envolvidos estão afastados das funções. Segundo o MP-GO, eles são monitorados por tornozeleiras eletrônicas.

O MP-GO informou ainda que as drogas apreendidas eram vendidas, pelo ex-diretor, aos detentos. Conforme a denúncia, apenas parte das substâncias eram encaminhadas à Polícia Civil para registro da denúncia.

"A droga ficava retida na sala e o Fábio vendia. Apreendemos balança de precisão, cocaína e maconha no dia da operação", explicou a promotora de Justiça Gabriella Clementino.

A promotora disse ainda que o servidor Antônio também é investigado por tortura. Segundo ela, o denunciado já teria atirado em um detento que pedia proteção.

"Determinado preso chegou no servidor, disse que estava com risco de vida, questionou, pediu proteção, mas, além de o manter na cela e não garantir a segurança, desferiu um tiro na virilha e isso caracteriza tortura", afirmou Gabriella.

Outro servidor investigado por participar da corrupção no presídio se trata de Ednaldo Monteiro da Silva, mas ele foi morto após a realização da operação e, por isso, não foi denunciado.

Escritório do crime

Esta é quarta denúncia referente à investigação. Nas três anteriores, os promotores denunciaram dez presos por tráfico de drogas e associação para o tráfico. Os detentos já foram transferidos para outros presídios do estado.

De acordo com a denúncia, eles comandavam o tráfico de drogas de dentro da cadeia, além de ordenarem roubos, extorsões e até homicídios. Com os internos, os promotores apreenderam um caderno com um registro da quantia movimentada pelos presos.

Motel e casa de câmbio

Além do "escritório do crime", os agentes permitiam e negociavam uma série de regalias para os internos que tivessem condições de pagar por elas. "Um preso chegou a questionar o um servidor o tamanho da corrupção no presídio", disse o promotor Thiago Galindo.

Entre as comodidades que mais chamaram a atenção dos promotores estão o motel, a saída para bancos, visitas a parentes fora da cadeia e uma cantina.

"A cantina existente era simplesmente uma casa de câmbio, vendiam tudo que era ilegal: celulares, bebidas, drogas. Servidores também pegavam dinheiro do caixa da cantina. É a situação mais inusitada até o momento. Contribuiu para mostrar a evidência da organização criminosa, a parceria entre servidores e presos", concluiu.