Padres não respondem a todas as perguntas durante depoimento no MP

A recomendação foi feita pela defesa dos acusados. A denúncia do desvio de verba deve ser concluída na sexta-feira (23/3)

22/03/2018 - 18:54 hs
Foto: (Minervino Junior/CB/D.A Press)
Padres não respondem a todas as perguntas durante depoimento no MP
O bispo dom José Ronaldo Ribeiro (E) e o vigário-geral monsenhor Epitácio Cardoso Pereira (D)

Depois de quatro horas de depoimentos, os líderes religiosos presos durante a Operação Caifás voltaram para o presídio estadual de Formosa na tarde desta quinta-feira (22/3). Por orientação da defesa, eles não responderam a todas as perguntas. Os interrogatórios foram realizados individualmente pelos promotores que investigam um suposto esquema de desvio de recurso da Diocese de Formosa (GO).

A partir dos depoimentos, os promotores concluirão a denúncia, que deve ser apresentada até esta sexta-feira (23/3), quando vence o prazo das prisões dos suspeitos. Nesta quinta-feira, foram ouvidos o bispo da cidade dom José Ronaldo Ribeiro, o vigário-geral monsenhor Epitácio Cardozo Pereira e o juiz eclesiástico padre Thiago Wenceslau.

A promotoria também pediu que todos os documentos e provas colhidos durante a investigação seja compartilhada com o Vaticano. "Todos os depoimentos são importantes nessa primeira fase de investigação", afirmou a promotora Fernanda Balbinot. De acordo com ela, o dinheiro em espécie apreendido durante a operação foi de R$ 156 mil — oito mil eram em moeda estrangeira.

Segundo o promotor Douglas Chemury, o bispo de Uruaçu (GO), dom Messias dos Reis Silveira, presidente do do Regional Centro-Oeste da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) esteve no órgão para ter acesso aos autos.

Na autorização do TJGO para o compartilhamento das provas, o juiz de direito Fernando Oliveira Samuel deferiu o pedido do MPGO sob o argumento de que “há interesse em eventual apuração de responsabilidade sob o prisma do direito canônico”, e previsão legal, “por se tratar de prova considerada lícita e compatível com a legislação”. 

“Nessa perspectiva, compreendo que, pelas mesmas razões constantes no julgado destacado, autorizo o compartilhamento das provas produzidas até o momento, estando o Ministério Público autorizado a fornecer todos os elementos de prova contidos nos autos a representante da Igreja Católica, inclusive o conteúdo das interceptações telefônicas referentes aos clérigos investigados nesses autos”, concluiu o magistrado. 

Investigação

A Polícia Civil goiana prendeu, temporariamente, por meio da Operação Caifás, líderes religiosos de Formosa (GO) e dois empresários, na segunda-feira (19/3). Na lista estão o bispo de Formosa, dom José Ronaldo Ribeiro — responsável por 33 paróquias —; o vigário-geral da Diocese da cidade, monsenhor Epitácio Cardozo Pereira; os padres e párocos Moacyr Santana, Waldoson José de Melo e Mário Vieira de Brito; o juiz eclesiástico Thiago Wenceslau; o secretário da cúria, Guilherme Frederico Magalhães; e os empresários, apontados como laranjas do esquema, Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira.

O Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) acusa os religiosos de um desvio milionário, que pode ultrapassar R$ 2 milhões. O esquema teria iniciado em 2015. O montante seria de batismos, casamentos, crismas, festividades religiosas, doações e dízimos dos fiéis. 

O dinheiro teria sido usado para comprar artigos de luxo, uma fazenda e uma casa lotérica. Na terça-feira (20/3), o Correio noticiou as notas promissórias da casa lotérica, localizada no município de Posse (GO), no nome do padre Moacyr Santana. A loja estava no nome de Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira. Contudo, áudios de uma conversa entre os suspeitos apontam que 55% do estabelecimento pertencem ao padre.

Ainda na tarde de terça-feira (20/3), o MPGO começou a escutar os envolvidas. O padre Waldoson José de Melo, e os empresários Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira prestaram depoimento. Na quarta-feira (21/3), foi a vez do padre e pároco Waldoson José de Melo e dos supostos laranjas do esquema, Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira. A expectativa do MPGO é de que até sexta-feira (23/3), todos os nove suspeitos sejam escutados.