Bispo emérito de Brasília defende religioso de Formosa e ataca instituições

Bispo emérito de Brasília defende religioso de Formosa e ataca instituições

Em carta, o religioso diz que o Ministério Público e o Tribunal de Justiça cometeram uma "extrapolação de poder"

04/05/2018 - 02:14 hs
Foto: (Minervino Junior/CB/D.A Press)
 Bispo emérito de Brasília defende religioso de Formosa e ataca instituições
Bispo emérito de Brasília defende religioso de Formosa e ataca instituições

Uma carta de João Evangelista Martins Terra, bispo emérito de Brasília, defende o bispo de Formosa José Ronaldo e faz duras críticas ao trabalho do Ministério Público e do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. O texto, entregue à comunidade católica e que está sendo repassado por redes sociais, chama a Justiça de “ignorante e irresponsável” e diz que o MPGO e o TJGO “cometeram uma extrapolação de poder”. A Arquidiocese de Brasília confirmou a veracidade e a autoria do documento.

O texto, segundo o autor, tem como objetivo elucidar o leitor católico. O religioso é enfático em defender os párocos de Formosa e reafirmar a postura que a cúpula da Igreja Católica vem adotando de dizer que dom José Ronaldo e a cúria diocesana não cometeram nenhum delito. “Todas as ações e atuações do bispo são ilibadas e estão respaldadas pela legislatura canônica e são absolutamente honestas e legais”, diz um trecho da carta.

Dom Terra cita o Código Canônico, o poder central do bispo e a obrigatoriedade da Igreja de alertar o poder público sobre a importância deste cânone. “A autoridade civil muitas vezes ignora e não compreende a organização eclesiástica”, escreve. O clérigo afirma que a Igreja Católica não é democrática, mas, sim, teocrática, e que cabe apenas ao bispo o “poder de ensinar, santificar e governar”. Ele justifica que o religioso é a autoridade máxima na diocese e que ele só deve explicações ao Papa Francisco.

O texto diz ainda que dom José Ronaldo sofria oposição clerical em Formosa. Entre as medidas que tiveram resistência estavam a construção de um mosteiro e a chegada de novos padres à diocese. 

Entre os argumentos a favor de dom Ronaldo, dom Terra afirma ainda que a Igreja Católica, por meio do bispo, pode adquirir bens e que os fiéis têm obrigação de socorrer às necessidades da Igreja para obras de caridade e para o honesto sustento dos ministros. Em tom revoltoso, o bispo diz: “Pela primeira vez na história do Brasil, e talvez na história universal, um membro do Colégio Apostólico e toda a Cúria Diocesana é violentamente agredido e aprisionado por uma justiça ignorante e irresponsável”. 

Reação

Douglas Chegury, promotor responsável pela Operação Caifás - que investiga o desvio de R$ 2 milhões envolvendo o dízimo de fiéis da Igreja Católica -, disse que teve acesso à carta e mostrou-se surpreso com as declarações e ataques às instituições públicas. “Quero acreditar que as palavras de dom João não representam o entendimento e tampouco o posicionamento oficial da Santa Sé, mas tão somente destilam ódio infundado e amargura frustrada de alguém que, apesar da larga e nonagenária experiência eclesiástica declarada, e todos os títulos reunidos, revela que não foi capaz de compreender na sua integralidade e simplicidade a mensagem de paz e amor do Cristo”. 

Entenda o caso

O bispo dom José Ronaldo Ribeiro, quatro padres e o vigário-geral de Formosa (GO) são suspeitos de dar um prejuízo superior a R$ 2 milhões aos cofres da Igreja Católica na cidade, segundo apontam as investigações do Ministério Público de Goiás (MPGO). Dinheiro desviado de dízimos, doações e taxas de celebrações foi usado na compra de uma fazenda de gado e uma casa lotérica, entre outros bens, de acordo com as denúncias de fiéis e de padres que não faziam parte do esquema.

Policiais civis e militares prenderam o bispo, cinco padres, dois empresários e um funcionário da Cúria durante a Operação Caifás, deflagrada em março deste ano. Na casa do monsenhor, apreenderam dinheiro escondido no fundo falso do guarda-roupa, além de dezenas de relógios e aparelhos eletrônicos e importados.

As investigações começaram em 2015. No ano passado, fiéis denunciaram ao MPGO que as despesas da casa episcopal de Formosa, onde o bispo mora, passaram de R$ 5 mil para R$ 35 mil. Todos negam o envolvimento no esquema.  (Com conteúdo do Correio Brasiliense)