Polícia acha R$ 13 mil em celas e prende suspeitas de fingir serem casadas com presos para levar drogas e armas a cadeia

Prisões e apreensões ocorreram na 3ª fase de operação contra regalias para detentos, em Aparecida de Goiânia. Mulheres recebiam R$ 300 para levar 'encomendas', diz MP

05/05/2018 - 01:54 hs
Foto: (Ministério Público de Goiás/Divulgação)
Polícia acha R$ 13 mil em celas e prende suspeitas de fingir serem casadas com presos para levar drogas e armas a cadeia
Dinheiro apreendido em celas da Penitenciária Odenir Guimarães, em Aparecida de Goiânia

Policiais acharam R$ 13 mil em espécie em quatro celas e várias porções de drogas na Penitenciária Odenir Guimarães (POG), em Aparecida de Goiânia, nesta sexta-feira (4), durante 3ª fase da Operação Regalia. Responsável pelas investigações, o Ministério Público informou que cinco mulheres foram presas suspeitas de fingir serem casadas com presos para "abastecer" cadeias do estado com armas e drogas. Além delas, um ex-agente penitenciário que participava do esquema também foi detido.

A Diretoria-Geral de Administração Penitenciária (DGAP) informou, por meio de nota, que toda a operação “foi desencadeada com base em informações levantadas pelos serviços de inteligência” da corporação, que desligou o então servidor ao saber das condutas ilícitas.

Ainda segundo o órgão, as visitas são direitos dos detentos e o cadastro é feito através de agências do Vapt Vupt, exigindo “declaração de união estável registrada em cartório”.

A respeito da participação dos presos nos serviços da cadeia, a DGAP afirmou que “após descoberta a fraude, foram tomadas todas as medidas para que a ocorrência não voltasse a acontecer”.

Segundo o MP-GO, as mulheres recebiam cerca de R$ 300 para levar "encomendas" para a POG. Nove detentos que teriam envolvimento com os crimes foram identificados. As identidades dos suspeitos não foram divulgadas.

O órgão disse ainda que as detidas eram "visitantes profissionais". Duas delas não conheciam nenhum dos presos e foram agenciadas para fazer as visitas, já que as verdadeiras companheiras eles tinham mandados de prisão em aberto.

Uma delas contou ao MP-GO que se envolveu com um detento após começar a visitá-lo na prisão para a entrega dos ilícitos. "As outras três mulheres presas eram companheiras de detentos, mas visitavam outros presos para entregar as armas, dinheiro e drogas", explicou a promotora Gabriella de Queiroz Clementino.

O órgão informou que foram executados 15 mandados de prisão em Goiânia e Aparecida de Goiânia e 15 de busca e apreensão. A ação foi realizada em conjunto com as polícias Civil e Militar.

Os presos nessa fase da operação vão responder por tráfico de drogas, associação para o tráfico e corrupção. Segundo o MP, alguns dos detentos que tiveram nova prisão decretada nesta ação estavam perto de conseguir progressão de pena para regimes mais leves. Um deles trabalhava na entrada da cadeia há 16 anos.

Como funcionava

Tudo acontecia com a ajuda de um ex-agente temporário e presos que trabalhavam na entrada de visitantes. Segundo o MP-GO, as "falsas esposas" chegavam com sacolas e as deixavam dentro de latões de lixo na porta da POG. Em seguida, passavam pelo scanner e revista normais.

Enquanto isso, os presos que trabalhavam na limpeza da cadeia recolhiam esses tambores de lixo com o material ilícito dentro e passavam para dentro do presídio. As sacolas não passavam por detectores e eram entregues às visitantes antes que elas se encontrassem com os detentos.

A operação encontrou ainda R$ 13 mil em espécie, 12 celulares, 19 chips, maconha, ecstasy e pasta base de cocaína em quatro celas da Ala C da POG.

Os promotores apuraram que o ex- agente penitenciário temporário preso na ação recebia cerca de R$ 5 mil por cada malote de itens ilícitos que permitia passar para dentro da cadeia. O servidor temporário trabalhou por dois anos na POG e teve o contrato expirado em janeiro deste ano. Por causa das investigações, o contrato não foi renovado.

Representantes das polícias informaram que as drogas, celulares, chips e dinheiro encontrados na 3ª fase da operação estavam escondidos em colchões, fundos falsos de celas e até dentro de costuras de roupas.

Conforme investigações do MP-GO, foi usando desse esquema de entrega de materiais ilícitos através das visitas das mulheres que armas e drogas entraram no presídio em dezembro de 2017.

Com as investigações em andamento, os promotores, na época, alertaram os órgãos de segurança pública sobre as entradas e evitaram a visita da ministra Carmen Lúcia aos presídios no início deste ano.

"O armamento apreendido depois entrou em dezembro e foi possível pela identificação de um agente. Por isso ministra não entrou, já que colocaria em risco a segurança dela e da equipe", explicou o promotor Thiago Galindo.

Fases anteriores

A 2ª fase da Operação Regalia, ocorrida em novembro de 2017, cumpriu 11 mandados de prisão contra o diretor, supervisor, agente, mulheres de detentos e os próprios internos da Unidade Prisional de Anápolis. As investigações do MP-GO à época apontaram que presos saíam para festas, traficavam drogas e até mantinham um motel.

"Havia um verdadeiro escritório seguro do crime, tráfico de drogas, até homicídio a gente conseguiu levantar de um preso que, em tese, teria suicidado. É uma gama de pequenos crimes que se prolongaram por muito tempo e ultrapassaram todos os limites", disse na ocasião o promotor de Justiça Thiago Galindo, que coordenou a operação.

A investigação apontou ainda que muitos presos não trabalhavam, mas tinham os dias descontados da pena como se tivessem trabalhado a semana toda sem descanso. Eles também negociavam saídas para visitar a família ou festas.

Segundo os promotores, também havia detentos que íam quase todos os dias para agências bancárias. "A saída temporária só pode ser autorizada para visitar velório ou hospital, mas constatamos que era um método corriqueiro. Agentes até digitavam as senhas de presos", detalhou o promotor.

Na sala do diretor os policiais apreenderam um caderno com o registro de pagamentos de vários presos e até cartões deles. Os promotores estimavam que o valor negociado ultrapassa R$ 1 milhão.

Na 1ª fase, realizada em setembro, um agente prisional e três ex-agentes foram presos. Segundo o Ministério Público, um dos suspeitos chegou a receber R$ 500 mil para fornecer benefícios a um reeducando.

Um vídeo mostra o momento em que um preso é levado por agentes prisionais para visitar família na Região Metropolitana de Goiânia. Durante a visita, o detento, que havia sido condenado a 36 anos de prisão pelo crime de tráfico de drogas, encontra familiares e até abre uma bebida (veja acima).

Cerca de 20 minutos depois, um agente recebe algo do preso e divide com os demais. Segundo o MP-GO, seria um maço de dinheiro com a quantia de R$ 6 mil. (Com conteúdo do G1).