A cobra bebê 'congelada no tempo' por 99 milhões de anos que traz novas pistas do passado

O fóssil de uma cobra bebê recoberto por âmbar

31/07/2018 - 02:31 hs
Foto: MING BAI/ACADEMIA CHINESA DE CIÊNCIAS
A cobra bebê 'congelada no tempo' por 99 milhões de anos que traz novas pistas do passado
O fóssil ajuda a entender por que as cobras são criaturas tão bem sucedidas

A criatura está preservada assim há 99 milhões de anos e estava viva quando os dinossauros ainda não haviam sido extintos.

"Esse é o primeiro fóssil de cobra bebê que já encontramos", disse Michael Caldwell, da Universidade de Alberta, no Canadá, à BBC News, um dos cientistas envolvidos na descoberta, anunciada no periódico Science Advances.

A cobra bebê viveu nas florestas de Mianmar durante o período Cretáceo. Ela foi batizada como Xiaophis myanmarensis, ou cobra-da-aurora-de-Mianmar.

Também foi descoberto um segundo fóssil em âmbar, que parece conter parte da pele de uma cobra muito maior. Não se sabe ainda se ambos os animais são da mesma espécie.

Como a cobra ficou presa em âmbar?

O animal ficou preso em seiva de árvore, uma substância grudenta que pode preservar pele, escamas, pelos, penas e até mesmo criaturas inteiras.

"É a supercola dos fósseis", disse Caldwell. "Âmbar é algo totalmente único - o que ele toca fica congelado no tempo dentro de uma resina parecida com plástico."

A ideia de fósseis preservados em âmbar está no cerne da trama do famoso filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, em que cientistas extraem DNA de dinossauro de mosquitos pré-históricos achados na resina endurecida de árvores.

Os primeiros fósseis

Cobras: O mais antigo fóssil de cobra conhecido data de 140 milhões a 167 milhões de anos atrás e vem do Reino Unido. A Eophis underwoodi era pequena, provavelmente um filhote, e vivia em locais pantanosos.

Lagartos: Um pequeno lagarto descoberto nas rochas dos Alpes italianos foi confirmado neste ano como o exemplar mais antigo do tipo. O Megachirella wachtleri viveu no período Triássico. A descoberta aponta que o grupo ao qual os lagartos pertencem evoluíram antes do que se pensava.

Dinossauros: Os fósseis mais antigos datam da mesma época dos lagartos. O Nyasasaurus tinha dois ou três metros de comprimento e foi encontrado na Tanzânia, na África. Mas só restaram alguns ossos do animal, então se sabe pouco sobre ele ou sua história. O grupo ao qual ele pertencia dominou a Terra por 165 milhões de anos.

Cavalos: O mamífero mais antigo que se parece com um cavalo é o Eohippus, que foi encontrado na América do Norte, em locais como a bacia do rio Wind, nos Estados Unidos. Ele viveu há cerca de 52 milhões de anos e tinha o tamanho de uma raposa. Mas cavalos de verdade só surgiram há cerca de 20 milhões de anos, quando tinham o tamanho de pôneis.

Humanos: Depende do que você chama de humano. Mas se aplicamos esse conceito a espécies do grupo biológico Homo, o exemplar mais antigo é um fragmento de mandíbula achado na Etiópia e que data de 2,8 a 2,75 milhões de anos atrás.

O que a nova descoberta diz sobre essas fantásticas criaturas?

O corpo de uma cobra pode ser visto dentro de um pedaço de âmbar, composto de 97 vértebras, além das costelas. Curiosamente, a cabeça da cobra não está ali.

Os ossos foram analisados por meio de um poderoso equipamento de raios-X e comparado ao de cobras atuais. A anatomia aponta que a espinha dorsal de cobras mudou pouco em quase 100 milhões de anos.

Cientistas dizem que essa espécie de cobra pode ter sobrevivido por dezenas de milhares de anos em estado primitivo antes de ser extinta.

O que sabemos sobre onde a cobra vivia?

Mianmar é considerado um verdadeiro baú de tesouros de fósseis do período Cretáceo, de entre 145 milhões a 66 milhões de anos atrás.

Descobertas recentes incluem a cauda de um dinossauro com penas, um aracnídeo e uma série de sapos pré-históricos.

Fragmentos de plantas e insetos achados dentro do mesmo âmbar confirmam que a cobra vivia em florestas. Isso é inédito para essa época, já que os poucos fósseis de cobras foram achados em rochas associadas a rios ou o mar.

Ricardo Pérez-de la Fuente, do Museu de História Natural da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que não tem ligação com a equipe por trás da descoberta, diz que ela "fornece dados preciosos sobre a evolução e o desenvolvimento de cobras antigas". (Conteúdo da BBC Brasil).