Quem é a mulher que aparece com seu rosto estampado nas notas de real?

Na obra de arte, Marianne é a mulher com os seios à mostra que, carregando a bandeira da França, guia o povo sobre os corpos derrotados

26/05/2017 - 01:41 hs
Foto: LUCAS BASTOS/SHUTTERSTOCK
Quem é a mulher que aparece com seu rosto estampado nas notas de real?
Quem é a mulher que aparece com seu rosto estampado nas notas de real?

De acordo com o Banco Central do Brasil (BC), a mulher que aparece com o rosto estampado em todas as notas do real é Marianne.

Marianne não existiu de verdade. Ela está pintada em um dos quadros mais conhecidos de Eugène Delacroix (1798-1863), importante pintor francês do Romantismo, e foi escolhida por ser uma “representação da República em uma figura feminina” que “teve origem na Revolução Francesa”, de acordo com a assessoria do BC.

A pintura, que recebeu o nome de La Liberté guidant le peuble ("A Liberdade Guiando o Povo", em tradução livre) foi feita em comemoração à Revolução Francesa de julho de 1830, que fez com que a França rompesse com a monarquia para adotar os princípios republicanos.

“O pintor ficou entusiasmado quando viu a bandeira republicana, com suas três cores, hasteada sobre a Catedral de Notre Dame”, explicou o professor Mário Fiore Junior, da Faculdade Belas Artes, em análise da obra.

Na obra de arte, Marianne é a mulher com os seios à mostra que, carregando a bandeira da França, guia o povo sobre os corpos derrotados.

Mas, fato é que mesmo antes da pintura de Delacroix, o mito de Marianne já havia sido criado e ela já tinha se tornado símbolo dos ideais republicanos. “A questão é que, no imaginário da República e em sua representação, sempre vai estar presente a figura de Marianne”, contou ao VIX Geraldo Mártires Coelho, professor de história social da Universidade Federal do Pará (UFPA).

De acordo com a Embaixada da França no Brasil, a origem do nome Marianne não é conhecida com exatidão, mas está relacionada ao fato de Marie e Anne serem dois dos principais nomes franceses no século XVIII. “Marie-Anne representava o povo. Mas os contrarrevolucionários também chamavam assim, como forma de zombaria, a República”, diz a embaixada. Por isso, o nome acabou pegando.

Símbolo representativo da República do Brasil

Desde a Revolução Francesa (1789-1799), Marianne é a efígie (nome que se dá à representação plástica de um personagem real ou simbólico) que se tornou símbolo da República.

No Brasil, esse símbolo passou a ser incorporado a partir da Proclamação da República, em 1889, quando o Marechal Deodoro da Fonseca tornou-se o primeiro presidente do país, rompendo com a monarquia portuguesa.

Por isso, antes mesmo do real, “a efígie simbólica da República já havia figurado diversas vezes no dinheiro brasileiro”, informa o Banco Central (BC).

Marianne nas moedas brasileiras

A pedido do VIX, a assessoria do BC enviou diversos exemplos de como o símbolo de Marianne aparece na nossa moeda corrente.

O registro mais antigo é da moeda de 50 centavos, que circulou entre 1965 e 1968. Pouco tempo depois, a efígie também apareceu nas moedas de 1, 2 e 5 centavos, por um período que vai de 1968 a 1980.

No caso das moedas de 10 e 20 centavos, a circulação durou mais: de 1968 a 1984.

Antes mesmo do real ser instituído como a principal moeda brasileira, em 1994, o Banco Central já emitia notas com Marianne como símbolo. O exemplo mais antigo mostrado pelo BC é da cédula de cruzeiro, que circulou de 1970 a 1984.

Alguns anos depois, as cédulas de 200 cruzados novos e de 5 mil cruzeiros também foram impressas com o rosto de Marianne, entre 1990 e 1994.

No caso dos cruzados novos, já dá pra perceber como o design é bastante parecido com o real – contendo, inclusive, o símbolo da República no canto direito.

Marianne nas artes brasileiras

Não foram apenas as cédulas e moedas do dinheiro brasileiro que Marianne estampou. Com a Proclamação da República, o Brasil também passou a adotar a figura feminina como símbolo. “No começo da República, tem-se a presença de Marianne na pintura e nas artes”, explica Coelho.

Muitos pintores brasileiros se inspiraram nas obras francesas pra criar as próprias ‘Mariannes’ no começo do século XX. No quadro “Pátria” (1918), de Pedro Paulo Bruno, há diversas mulheres em uma sala costurando o que seria uma gigante bandeira do Brasil.

O exemplo mais parecido com o de Delacroix chama-se, justamente, “Marianne”, e foi pintada por Décio Villares, o mesmo criador da bandeira republicana brasileira, em 1889. Na pintura, a mulher perfilada usa roupas e um chapéu conhecido como barrete de cor verde.

Representatividade de Marianne no Brasil hoje

“Incorporou-se ao republicanismo brasileiro a representação alegórica da República”, explica Coelho. Contudo, conforme explica o escritor suíço Joseph Jurt, autor da obra “O Brasil: Um Estado-Nação a Ser Construído”, essas figuras eram apenas uma forma de dar sentido a essa nova forma de governar, que teve desdobramentos diferentes no Brasil. “Não houve, no Brasil, uma tradição iconográfica autônoma de uma figura que reunisse Liberdade, Nação e República”.

Nesse contexto, a figura de Marianne passou a ser retratada isoladamente no conceito republicano brasileiro. A própria nota do real, hoje em dia, é uma consequência disso: a figura aparece sozinha.

“Se nós fôssemos retificar Marianne no republicanismo brasileiro ou latino-americano seria qualquer coisa como um déjà vu”, opina Coelho, explicando as diversas transformações do ícone com o passar dos anos.

Quando o Banco Central do Brasil foi criado em 1945, a partir de um decreto do então presidente Getúlio Vargas, o conceito de república do nosso país já havia se distanciado dos ideais franceses.

Mais de 70 anos depois de sua criação, o BC assegura que Marianne “continua representando os ideais republicanos”.

Ela pode ter traços e expressões diferentes, mas ainda estará associada ao ideal de liberdade e igualdade de dois séculos atrás.

As mudanças de Marianne ao longo do tempo “não significam uma negação dos ideais democráticos e de liberdade, que estão impregnados no ideal maior da República”, segundo Coelho. “Mas, no que diz respeito à representação alegórica, evidentemente que os tempos são outros”.