Comitê de Ética da Fifa suspende Marco Polo Del Nero por 90 dias

Comitê de Ética da Fifa suspende Marco Polo Del Nero por 90 dias

Decisão impede que presidente da CBF realize atividades ligadas ao futebol no período, que pode ser estendido por mais 45 dias. Del Nero vai recorrer ao Comitê de Apelação

16/12/2017 - 03:04 hs
Foto: (Lucas Figueiredo/CBF)
Comitê de Ética da Fifa suspende Marco Polo Del Nero por 90 dias
Marco Polo Del Nero está impedido de realizar funções ligadas ao futebol por 90 dias

O Comitê de Ética da Fifa anunciou nesta sexta-feira a suspensão do presidente da CBF, Marco Polo del Nero, por 90 dias. Neste período, o dirigente ficará impedido de realizar qualquer atividade ligada ao futebol - e a punição pode ser estendida por mais 45 dias. Del Nero vai recorrer ao Comitê de Apelação da Fifa. Após a notícia, a CBF anunciou que o vice Antônio Carlos Nunes de Lima - o Coronel Nunes - assumiu interinamente a presidência.

Segundo o comunicado divulgado pela organização, "a decisão foi tomada diante do pedido do presidente da câmara de investigação, levando em conta a investigação formal sobre o senhor Polo Del Nero". Del Nero é acusado pelos promotores do Caso Fifa, nos Estados Unidos, de ter recebido US$ 6,5 milhões (R$ 21,5 milhões na cotação atual) em propinas para beneficiar empresas de marketing esportivo - José Maria Marín, ex-presidente da CBF, é alvo das mesmas acusações.

Em nota oficial divulgada na noite desta sexta-feira (confira a nota completa mais abaixo), o agora afastado presidente da CBF se disse inocente, ressaltou que os contratos investigados pela Justiça norte-americana são anteriores ao seu mandato. Del Nero ainda afirma para que "antes de acusarem a quem nada deve, apresentem provas e documentos que indiquem as contas bancárias, as remessas, o meu envolvimento – direto ou indireto – com empresas investigadas, o recebimento ou o “caminho do dinheiro”".

Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes, assumirá a presidência da CBF no período, como manda o estatuto da confederação. Presidente da federação do Pará, ele é o vice-presidente mais velho em exercício. Em dezembro de 2015, quando Del Nero se licenciou do cargo por quatro meses, foi Coronel Nunes quem comandou a confederação.

Marco Polo del Nero tinha planos de convocar uma nova eleição para abril de 2018, para tentar mais uma mandato até 2023, quando poderia buscar uma nova reeleição, até 2027. Seu mandato atual terminaria em abril de 2019.

A investigação da Fifa

Como o GloboEsporte.com revelou na quinta-feira, a Fifa reabriu a investigação sobre Del Nero após documentos e depoimentos serem revelados durante o julgamento de José Maria Marin nos Estados Unidos. Na última quarta-feira, promotores do "Caso Fifa" afirmaram que Del Nero recebeu US$ 6,5 milhões em subornos para beneficiar empresas de marketing esportivo em contratos relacionados a Copa América, Copa Libertadores e Copa do Brasil. O presidente da CBF nega todas as acusações e afirma ser inocente.

Desde maio de 2015 o presidente da CBF não sai do Brasil, país que não extradita seus cidadãos, e por isso não foi julgado nos EUA junto com Marin, Juan Angel Napout e Manuel Burga. No Brasil, Del Nero não é acusado de nenhum crime. Mas as dezenas de menções a seu nome em depoimentos, planilhas, gravações e outros documentos tornados públicos pela investigação americana levaram a Fifa a destravar um processo interno aberto há dois anos.

Em dezembro de 2015, imediatamente após Del Nero ter sido indiciado pelo departamento de Justiça dos EUA por sete crimes (três de fraude, três de lavagem de dinheiro e mais um por integrar uma organização criminosa), o Comitê de Ética da Fifa abriu uma investigação interna, que pouco ou nada avançava. Até o julgamento em Nova York começar. Todas as citações a Del Nero foram enviadas a Zurique.

Procurado para falar especificamente sobre a investigação do Comitê de Ética da Fifa, Marco Polo Del Nero, informou que não poderia comentar, por se tratar de caso em andamento. Segundo o GloboEsporte.com apurou com pessoas que conhecem o caso, todos os documentos solicitados pela investigação foram enviados pela CBF.

Em todas as suas manifestações anteriores sobre o "Caso Fifa", Del Nero afirmou que "nunca participou, direta ou indiretamente, de qualquer irregularidade ao longo de todas atividades de representação que exerce ou tenha exercido". O presidente da CBF também declarou que "jamais foi membro do Comitê Executivo da Conmebol". Algo desmentido por documentos da própria Conmebol.

Assim que foi indiciado, Del Nero chegou a se licenciar da presidência da CBF por alguns meses. Quando recebeu um sinal verde da Fifa, reassumiu a chefia do futebol brasileiro. Mas nunca voltou a sair do Brasil.

A influência do julgamento de Marin

O julgamento do ex-presidente da CBF José Maria Marin na Justiça dos Estados Unidos certamente teve peso decisivo na decisão do Comitê de Ética de suspender Del Nero. As sete acusações que pesam contra Marin são as mesmas formuladas contra Del Nero – três de fraude, três de lavagem de dinheiro e uma por integrar uma associação criminosa. Os dois são acusados de receber propina para beneficiar empresas de marketing esportivo. A exemplo de Marin, Del Nero nega todas as acusações e afirma ser inocente.

Na última segunda-feira, a juíza Pamela K. Chen afirmou que Del Nero "talvez tenha mais amigos na cúpula da Fifa" do que Marin. A defesa do ex-presidente da CBF, por sua vez, apelou ao argumento de que Marco Polo era o operador da corrupção no futebol brasileiro, em sua última chance de convencer os jurados do Caso Fifa. O julgamento em Nova York pode ter fim nos próximos dias.

– O futebol brasileiro é uma monarquia, e o rei era o Marin. Daqueles reis que não decidem nada. Marco Polo era o presidente, que fazia as coisas – afirmou Charles Stillman, advogado de Marin.

Confira a nota oficial de Marco Polo Del Nero

À vista da decisão do Comitê de Ética da Fifa proferida na data de hoje bem como às últimas notícias divulgadas pela mídia, que se referem ao julgamento do ex-presidente da CBF José Maria Marin na Corte da Justiça do Brooklin, Nova York, EUA, cumpre-me, em respeito à opinião pública com vistas a restabelecer a verdade, esclarecer que:

1 – Não estou julgado naquela Corte de Justiça americana, eis que os acusados no processo em questão são os senhores Burga, Napout e Marin, ex-dirigentes de entidades internacionais voltadas ao futebol.

2 – Como presidente eleito da CBF e sucessor cronológico de Marin, natural que meu nome pudesse ser referido como representante da entidade nos dias que correm, até como dado de esclarecimento sobre os limites temporais da administração precedente.

3 – Assumi a presidência da CBF em 2015, passando a responder por ela a partir desse momento, início de meu mandato, nada tendo a ver com os contratos por ela celebrados nos anos anteriores, que são, precisamente, os que se acham sob investigação na Justiça americana e na Fifa.

4 – No julgamento em curso na jurisdição norte-americana não surgiu – mesmo porque nunca existiu – dado concreto e documental de qualquer recebimento de vantagens ilícitas de minha parte, embora os investigadores do FBI – mundialmente reconhecidos com os mais capacitados do planeta – tenham realizado uma completa devassa em minha vida econômica, fiscal e bancária. Nenhum centavo de real, euro ou dólar foi encontrado como a mim destinado, tampouco contas bancárias ocultas ou estruturas secretas, contrariamente ao que se constatou em relação a outros acusados.

5 – As contratações de que participou a CBF e que se acham sob suspeita e julgamento SÃO TODAS ANTERIORES À MINHA GESTÃO E NÃO FORAM POR MIM ASSINADAS.

6 – A tentativa de réus e delatores se livrarem de acusações que lhe são dirigidas através do expediente corriqueiro de atribuir a terceiros inocentes a prática da infração em troca de benesses processuais é comum nos tribunais e não pode ser aceita como verdade absoluta.

7 – Fica lançado aqui o repto para que qualquer pessoa, entidade, órgão de imprensa, instituição ou investigador, nacional ou estrangeiro, aponte e comprove a existência de conta bancária, fluxo financeiro ou dado contábil que espelhe qualquer recebimento de vantagens indevidas de minha parte.

8 – Meus advogados requererão, no momento processualmente adequado, o arquivamento dessas graciosas especulações investigativas e a adoção das contramedidas cabíveis.

9 – Em suma, como nada de irregular pratiquei e, por isso mesmo, não posso aceitar o enxovalhamento de minha honorabilidade, manifesto aqui o meu enfático repúdio à essas leviandades acusatórias e renovo o desafio: antes de acusarem a quem nada deve, apresentem provas e documentos que indiquem as contas bancárias, as remessas, o meu envolvimento – direto ou indireto – com empresas investigadas, o recebimento ou o “caminho do dinheiro” já que modernamente nenhum centavo é movimentado sem que fiquem visíveis rastros... ou, então, que não se insinuem maldades contra quem nada de ilícito praticou.

Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 2017,

Marco Polo Del Nero